Após confirmação dos primeiros infectados no monte, decisão do Nepal de abrir a montanha a alpinistas estrangeiros voltou a ser questionada; especialistas veem perigo de propagação da doença.
Os primeiros casos de Covid-19 identificados no acampamento-base do monte Everest renovaram as discussões sobre a decisão do Nepal de abrir a montanha mais alta do mundo para alpinistas estrangeiros, enquanto o acesso no lado chinês permanece fechado para escaladores de fora.
Poucas semanas após o início da temporada de escalada da primavera, foi confirmado o primeiro infectado por coronavírus na montanha, conforme revelou a revista Outside na última quarta-feira (21). O alpinista norueguês Erlend Ness foi retirado de helicóptero com suspeita de um edema pulmonar, mas testou positivo para Covid-19 no hospital da capital nepalesa Katmandu.
Logo depois, foi divulgado que houve outros casos reportados no Everest cujo diagnóstico também foi positivo para a doença, segundo mostrou o jornal americano The New York Times. Oficialmente, no entanto, as autoridades do país não confirmaram o número exato de infectados no monte. Ainda há a preocupação de que outros contaminados sejam desconhecidos ou tenham sido ocultados.
“Eu realmente espero que nenhum dos outros seja infectado no alto das montanhas. É impossível evacuar pessoas com um helicóptero quando elas estão acima de 8.000 metros”, disse Ness à emissora norueguesa NRK. “Respirar já é difícil em grandes altitudes, então qualquer surto de doença entre alpinistas apresenta riscos urgentes para a saúde”.

O norueguês relatou que seu teste deu negativo antes de sair da Noruega e durante a quarentena em Katmandu. Disse ainda que se deslocou rapidamente ao acampamento-base do Everest para reduzir o risco de contágio ao longo do percurso.
Especialistas apontam que o surgimento de casos está configurando um cenário propício a um “evento super disseminador”. Eles alertam que os sintomas da Covid-19 podem ser facilmente confundidos com a doença conhecida como “mal de altitude” e com a tosse Khumbu, causada pela baixa umidade e temperatura. Ambas acometem alpinistas com frequência.
Embora algumas empresas de escalada comercial ocidentais tenham cancelado seus itinerários para este ano em razão da pandemia, outras empresas, incluindo algumas sediadas em Katmandhu, continuam operando seus planos para a temporada.
Recentemente, o Nepal emitiu 377 autorizações de escalada para estrangeiros que tentam subir o Everest este ano, quase o mesmo número emitido em 2019. Na ocasião, 11 pessoas morreram no pico e inúmeras mortes foram atribuídas à longa espera para descer do cume ao acampamento-base.

A economia do país depende bastante de turistas estrangeiros. O governo já arrecadou mais de US$ 3,8 milhões em taxas de licenças de escalada neste ano, e a quantidade de dinheiro que os alpinistas gastam enquanto estão no local representa uma receita estimada de US$ 300 milhões, segundo o Washington Post.
A arrecadação despencou no ano passado com a pandemia e o consequente fechamento de fronteiras do Nepal. Após a difícil temporada, o país retomou as atividades turísticas no Everest com protocolos que logo foram flexibilizados. Inicialmente, todos os alpinistas deveriam obter seguro que cobriria custos com tratamento de Covid-19, mas a exigência foi retirada. Os escaladores também devem testar negativo para a doença antes de embarcar e ficar em quarentena de sete dias ao chegar, embora esta última medida possa ser substituída por um segundo teste negativo.
Em meio a esse cenário, equipes continuam se movimentando para as expedições rumo ao pico e realizam confraternizações em tendas lotadas. O Nepal sinalizou que adotaria novas medidas, mas até o momento apenas fotos foram proibidas, o que foi visto como uma tentativa de evitar propagandas adversas.
O Nepal está situado próximo à Índia, país que enfrenta recordes diários de casos da doença e o colapso do sistema de saúde. Familiares desesperados estão recorrendo a pedidos de ajuda no WhatsApp para conseguir leitos e oxigênio a seus entes.
Fonte: Epoca